quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Após prisão de cinco pessoas, prefeito de Japeri é investigado por homicídio


Uma denúncia exclusiva de corrupção e assassinato em Japeri, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro.
Os funcionários da prefeitura se esforçam, não podem falhar. A banquinha de sorvete está no centro de uma disputa política. O dono da banca era André da Silva Conceição, o Andrezinho. Comerciante, pai de três filhas, adversário político do prefeito.
“Ele falou que me odeia. Cheio de buraco na cidade para tampar, parou a cidade por causa do Andrezinho”, diz.
Quando Andrezinho fazia um discurso improvisado na calçada, já estava marcado para morrer. “Minha mãe está com medo de ele me matar, minha mãe passou a noite chorando”, disse o candidato.
Quem mandou retirar a barraca da calçada foi Ivaldo dos Santos, o Timor, atual prefeito e candidato à reeleição pelo PSD, em Japeri. A cidade de 95 mil habitantes tem o pior Índice de Desenvolvimento Humano da Baixada Fluminense.
O prefeito Timor gravou imagens para ter provas contra dois vereadores do PSB: o presidente da Câmara, Zé Ademar, e Valter de Macedo, o Val. São todos aliados políticos, mas parece que o prefeito não gosta muito deles.
Depois de uma conversa, Timor entrega um maço de notas a Zé Ademar, que guarda o dinheiro no bolso.
Pouco depois, a cena se repete com o vereador Val. A câmera foi colocada de modo a não mostrar o rosto da pessoa que entrega o dinheiro aos dois vereadores. Mas ela fica ligada até o momento em que o prefeito leva Zé Ademar até a porta, e se vê o rosto de Ivaldo dos Santos.
As imagens foram periciadas pela polícia. São autênticas.
O delegado Carlos Augusto da Silva tem uma explicação para a entrega do dinheiro. “Pela análise do conteúdo dos diálogos, tudo leva crer que se trata de pagamento de propina em troca de apoio político”, afirma.
As imagens dos pagamentos foram gravadas em março do ano passado. Naquela época, esses dois vereadores estavam ameaçando fazer uma aliança com a oposição. Depois de reconquistar o apoio de Val e Zé Ademar, o grupo do prefeito decidiu atacar quem estava criando o problema. Segundo a polícia, a decisão foi matar Andrezinho.


No dia 12 de maio de 2011, Andrezinho, que aparece de camiseta branca, mandou instalar câmeras de vigilância em seu restaurante, em Japeri. Não imaginava que, naquele mesmo dia, elas gravariam as últimas imagens dele com vida.

Com o restaurante já fechado, chega um visitante. Outro homem, também de camiseta branca, é Sidnei Coutinho, que na época era secretário municipal de Assistência Social de Japeri. Segundo as investigações, a vítima abraçou um traidor.

A polícia diz que quando Sidnei foi ao banheiro, informou pelo celular o momento em que a vítima iria embora e as roupas que estava vestindo. Pouco antes das 21h, Andrezinho saiu do restaurante para morrer.

Ele foi assassinado de joelhos, com dois tiros, na frente da própria casa. O atirador ainda levou alguns objetos para simular um assalto. Mas, aos poucos, foi ficando clara a motivação política do crime.
Dois meses depois, a polícia prendeu o homem que seria o assassino, Tiago Rosa da Silva, o TH, gerente do tráfico em um dos bairros de Japeri. Mas a chave da investigação foi a prisão de Ítalo Gomes Nery, o Dudu. Motorista da prefeitura de Japeri, foi ele quem contratou o atirador e o levou até a casa de Andrezinho.


Arrependido, na delegacia, Dudu confessou o crime, e pediu para conversar com a mãe da vítima. “Primeiramente, já pedi muito perdão a Deus pelo que eu fiz, estou aqui quero pedir perdão à senhora, a senhora não é obrigada a aceitar porque eu sei da dor que a senhora está sentindo”, disse.

“Eu sou mãe, eu sou mãe. A dor, a saudade não vai passar nunca. Apesar de todo sofrimento que você me fez, eu tenho pena de você”, falou a mãe da vítima.
O trabalho da polícia prosseguiu. Dudu apontou um dos mandantes do crime: Seny Júnior, ex-secretário de governo de Japeri. Foi em um cofre na casa dele que os investigadores acharam o pen drive com as imagens do prefeito entregando dinheiro aos vereadores.
“Como nós apreendemos esse pen drive, ele se mostrou bastante nervoso, inclusive temeroso por sua vida, dizendo que se o segredo ali fosse revelado ele seria um homem morto”, apontou o delegado.
Seny Júnior foi preso no último dia 22 de junho. E no dia seguinte, a polícia prendeu outro secretário municipal: Cláudio Vieira, tio do prefeito Timor, que emprestou o carro usado no crime. Mesmo na cadeia, Cláudio ainda é secretário de governo em Japeri.
No dia 8 de agosto, foi preso o terceiro secretário: Sidnei Coutinho, o do restaurante. Os cinco presos foram denunciados pelos promotores do Gaeco, o Grupo de Combate ao Crime Organizado, e já tiveram um habeas corpus negado pela Justiça.
A polícia tem convicção do envolvimento do prefeito no crime. “A investigação está bem conduzida nesse sentido de que o prefeito Timor é um possível mandante do crime. Todos estão presos, denunciados, com exceção do prefeito”, afirma o delegado.
A equipe de reportagem do Bom Dia Brasil esteve na prefeitura de Japeri, mas não foi recebida pelo prefeito. À noite, por telefone, o advogado dele disse que Timor não vai falar sobre as denúncias. “No momento não tem o que se pronunciar nesse sentido. Porque os fatos são absolutamente estranhos a ele”, disse.
Com foro privilegiado, o prefeito só pode ser indiciado depois de uma requisição do procurador-geral de Justiça. O inquérito foi enviado a ele no dia 26 de julho.
A equipe também procurou os vereadores que receberam o dinheiro, mas nenhum deles estava na Câmara Municipal. A campanha eleitoral em Japeri segue normalmente.

Fonte: Jornal Extra

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